Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Um dia como estes ...



















Quando era Primavera partimos em direcção ao sonho. Éramos jovens, os dias não tinham noites e as madrugadas começavam nos teus olhos donde jorrava a esperança.
Depois foi a sina. A sorte escrita na palma da mão. O sonho fez-se destino e o destino mascarou-se de carreira. Havia que tudo agarrar e nos dedos, a quererem apertar o futuro, os anos foram caindo como a areia apertada na palma da mão.
Um dia, ao poente, olhei para trás. Já não consegui dar com o ínicio da jornada. Tinha-se perdido na noite. Dei conta que o caminho da esperança chegara a um bêco sem saída num muro acolchoado de hera que cunfundira com esperança!
Ainda tentei agarrar o sonho. Mas era só pesadelo, silêncio e uma mão regelada pela nevada do Inverno. Nada mais. Era já muito tarde.
E perdi-te para sempre.


js

CASAMENTO NO HUIGE




















Foi um sábado já com um sol de meio-dia quente e saboroso, a convidar a libações de preferência com bebidas bem geladas que, na velha e bonita igreja matriz do velho Uige, hoje cidade de Carmona, situada no princípio d...a Avenida Capitão Pereira, que a Russinha e o Tó Mané se casaram.
A noiva ia linda como vão todas as noivas que pensam ir ao encontro da felicidade; mas o vestido, feito de encomenda pela Maria Armanda, deixou sem fala muitas das costumeiras más-línguas do Uige.
O noivo … era um perfeito noivo! Não admira, o fato tinha sido feito e caprichado pelo Sampaio & Irmão, os melhores alfaiates de Luanda!
Comoveram-se até às lágrimas quando disseram o “sim, quero”.
Os convidados deram profundos suspiros, quem é de suspirar; sorriram enlevados os que normalmente acham que em ocasiões como esta se deve sorrir enlevado. Eu fui desses de quem estou a tentar fazer graça. Enfim, portaram-se todos convenientemente, seja lá o que isto signifique.
No ar do dia quente e luminoso, os sinos repicavam à boda e a garotada esperava à porta da igreja pelos rebuçados e guloseimas da tradição.
A missa de casamento foi celebrada pelo senhor cónego Barata, uma figura estimada e respeitada em todo o Congo Português.
Ainda houve amigos que quiseram que fosse o Padre Rosas a oficializar a cerimónia, pois era um grande amigo e fazendeiro como nós todos. Mas eu entendi não ser essa a melhor escolha, só por causa da Russinha que o achava um imoral; o padre Rosas tinha sido padre para fazer a vontade à mãe e pouca vocação teria para tais funções. Quando cansado de dizer missas, perdoar pecados e baptizar meninos, fazer sermões e aturar beatas, tirava umas férias de sacerdote, com ou sem autorização eclesiástica. Fazia então umas férias, mais ou menos prolongadas, mais ou menos sabáticas, até que um dia, reconhecendo os seus pecados, se confessava e se reconciliava com a hierarquia. Voltava então ao redil para cumprir penitência.
Entretanto ficavam em “pousio”, as fazendas, as mulheres, os filhos, mais ou menos claros, pelas vastidões do Congo, à espera do fazendeiro que sempre regressava.
Aqui em África as coisas têm dimensões próprias. Também a moral, a virtude e o pecado assim são. E como por estas terras não há justos, as pedras não podem ser atiradas a quem quer que seja. Resta a má-língua, própria das pequenas sociedades rurais que dá para entreter, passar o tempo e para que, cada qual, possa medir ou aferir a sua própria honradez e as fraquezas do seu próprio carácter.
Nesta altura, o sacerdote, doublé de fazendeiro, estava numa fase que até dava para também ser padre!
Subiu ao púlpito e fez um sermão brilhante sobre o amor, como a máxima expressão da bondade divina!
Não resistiu aos votos de uma alargada família cheia de filhos pois todos não somos demais para continuar Portugal, disse, parafraseando a célebre tirada do Oliveira Salazar.
Pareceu a todos os presentes que o sermão fora mais aprimorado que os habituais sermões de casamento. Mais tarde, as “más-línguas” sugeriram que isso se devia a muito boa disposição do padre causada pela produção de café que a sua fazenda tivera, muito além das expectativas.
As senhoras da vila excederam-se na decoração do templo. Não houve jardim da terra que não contribuísse com as suas melhores flores e verduras.
Quando deixei a minha irmã no altar fiz por esconder uma lágrima que me atormentava vir a rolar pela minha face. Afinal, cumpria-se a sua vontade e resgatara-se o seu grande sonho de amor, que um dia ficara amarrado às fragas, nos recônditos da serra, na terra que nos viu nascer, com o do cabo da Guarda Republicana “que nem sargento era”.
A nossa mãe, radiante como sempre, no seu impecável vestido branco e capelline de organza, parecia outra noiva!
Fora ela quem deu o braço ao seu novo genro no caminho do altar.
O Kalita, de braço dado com a mamã Cesaldina, de carrapito, reluzindo num dos seus vestidos que trouxera da sua terra do Minho quando viera para Angola, adornada com um grosso cordão e as arrecadas de ouro tradicionais, sugeriam duas figuras do antigamente – uma beleza!
No casamento, além dos nossos amigos e familiares angolanos, incluindo o Mário e a Lelé, esteve o Uige inteiro e arredores. Veio gente de Maquela, da Damba, de Sanza-Pombo, do Negage, de Camabatela, do Quitexe, do Bembe, do Ambrizete, de Luanda. Houve até famílias que adiantaram as férias do Natal para estarem presentes.
Entre os convidados sobressaia a juventude: moças e rapazes casadouros, já com alguns derriços à mistura, tomaram lugar nos primeiros bancos da igreja. Destacavam-se a Virgínia e a irmã, filhas do Laurindo Ribeiro, a Mariazinha, a Eduarda e Cinda, filhas do Cordeiro de Oliveira, do Songo, a Raquel Nascimento, a Maria Helena, filha do Oliveira da Damba a Judite, filha do António Moço, do Ambrizete, a Júlia Barbosa e a Maria José Patrício, a Maria Helena Branco, namorada do filho do Ricardo Gaspar, a Paula, o Beto e a Gija, o Manuel, a Guida, o Zé, a Dora e a Didi, a Maria João e a Mena, a Paula, a Aninhas, o Zé Manel, mais o Paulo Luís, o Jorge e o Rui. Todos filhos dos meus amigos e quase todos, senão nascidos, criados e educados nestas terras do Uige.
Os quartos no Grande Hotel do Uige e no velho Hotel do Cardoso esgotaram. Mas como sempre, a sagrada hospitalidade do Mato funcionou. Quem não tinha quarto nos hotéis tinha em casa de uigenses.
O copo d’água foi servido pela gerência (já com o traquejo adquirido para estas cerimónias) do Grande Hotel do Uige, na sala grande do Clube Recreativo. O Zé Perestrello, director da Cuca, mandou montar, de propósito, vários barris de cerveja a copo a fim de matar a sede e o calor daquele dia de Verão.
Ainda houve quem pensasse em mandar vir da Metrópole, de propósito e para abrilhantar a cerimónia, o Duo Ouro Negro. Mas tal não foi possível por estes terem compromissos de espectáculos no estrangeiro.
O “Ouro Negro” era muito querido por todos, porque não obstante o Raul e o Milo fossem nados e criados na região de Malange, se “tinham feito” no Uige, onde trabalharam como topógrafos e onde tiveram as primeiras actuações, inclusivamente na Rádio Clube do Congo. O Raul e o Milo moravam então num anexo do prédio do Carlos Alves.
Assim, foi com a “prata da casa”, que já tinha actuado noutros eventos com êxito, que “saíram” os merengues, os sambas, os tangos e quejandas músicas bem mexidas.
A farra bem angolana foi de arromba!
Na hora própria, e à socapa, os noivos abalaram para a fazenda do Joaquim Neves Ferreira, especialmente preparada para a lua-de-mel, numa Station Jeep, melhor dito, num Jeep Willys Overland Super Hurricane, oferecido por mim, pois sabia quanto o Tó Mané era “maluquinho” por jeeps.
No outro dia, seguiriam em direcção a Luanda, para uma lua-de-mel de um mês e, já na nova viatura, iriam visitar e conhecer bem as praias e as cidades do sul de Angola.

JOÃO SENA
in - O CAÇADOR DE BRUMAS
III Parte - O capim arde verde

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

O fogo que na branda cera ardia






















O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.


Como de dous ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.


Ditosa aquela flama, que se atreve
A apagar seus ardores e tormentos
Na vista de que o mundo tremer deve!


Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos.


Luis de Camões

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

UM DIA COMO ESTES ...
























Morre a tarde e descansam os girasóis !
js

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

A Tempestade do Destino






















Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.




(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.


Haruki Murakami
in - 'Kafka à Beira-Mar'

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Fernando Pessoa por Joao Villaret- Tabacaria

Um dia como estes

















Já gostei do Carnaval. Foi no tempo da farinha, dos "assaltos" ás casas dos amigos e dos bailes de salão. Depois foram tempos de divertimento e ousadia, com alguma surpresa à mistura.
No peregrinar por terras estranhas vi outras gentes e diferentes lugares. Vi o insólito. Das gargalhadas, passei ao riso, depois ao sorriso, ao olhar e, agora, ao esgar!
Azedei muito nestes tempos. Não consigo descolar a máscara que coloquei no rosto.
Olho lá fora.
Está sol. Também o Inverno celebra o Carnaval!

js

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

MAR !





















MAR! Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...


MAR! Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
- Nem aumentar nem sufocar o pranto...


MAR! Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!


MAR! Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!


MAR! E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
miguel torga

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012




















Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Friedrich Nietzsche

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Um dia como estes



















Nesta tarde fria de Inverno choro por uma grande Artista que se foi.
Whitney Houston cantou com emoção o Amor.
A vida, os compromissos comerciais, a fama, a sua pouca capacidade para aguentar, resistir e sobreviver, tiveram este desfecho!
Na deontologia militar aprendia-se que para a fama e para a honra, MUITO POUCOS SÂO OS QUE ESTÃO PREPARADOS!
Era uma mulher bela!
Ante o bisturi do médico que fará a autópsia mais não será que um cadáver!
É assim a vida!

Whitney Houston - I Will Always Love You

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

ALMIRANTES, GENERAIS E A QUADRATURA DO CÍRCULO



A primeira parte do programa da Sic Notícias “A Quadratura do Círculo” de ontem (09Fev) proporcionou-nos, provavelmente, o melhor debate dos últimos anos sobre a problemática das Forças Armadas.
Logo a abrir, José Pacheco Pereira começou por salientar que era essencial que a República decidisse se quer ou não ter Forças Armadas. Depois, acrescentou que era sua convicção haver muita gente no governo que de bom grado optaria pela opção da sua´extinção, nas quais vêem apenas uma enfadonha despesa. Da intervenção de Pacheco Pereira relevo, ainda, o facto de ter dito, em tom naturalmente solene, que seria um tremendo erro menosprezar o mal-estar existente das FA, patenteando uma sensibilidade muito correcta sobre o sentimento presente nas fileiras e que não é, como o actual  Ministro da Defesa pretende fazer crer, uma manifestação semi-subversiva, filha de uma manipulação política cozinhada no seio das Associações Profissionais de Militares.


Da intervenção de António Costa realço a observação que fez relativamente ao tipo de medidas que, no âmbito da actual crise, o governo tem implementado nas FA. Para o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, essas medidas têm incidido muito mais nos cortes dos direitos dos militares do que na racionalização do funcionamento da estrutura militar, onde, segundo ele, se poderiam encontrar diversas formas de fazer baixar a despesa.


A intervenção de António Lobo Xavier foi extremamente invulgar e merece um destaque especial. Começou por discordar da terminologia usada recentemente pelo MD, ao referir-se à “insustentabilidade” do actual modelo de FA. Lobo Xavier disse que ninguém podia esperar que as FA, como qualquer empresa bem gerida, se pagassem a si próprias. Depois, considerou que as polémicas em que o ministro se tem envolvido com as APM acabam por diminuir a importância das Chefias Militares. E formulou algumas interessantíssimas perguntas: qual será o pensamento dos CEM’s acerca de toda esta polémica? De que lado estão? Qual é o seu papel? Seguidamente, perante a ausência de respostas a estas singelas quão inocentes perguntas, rematou, em tom conclusivo, o óbvio: não vejo que tenham credibilidade!


Para os militares do activo, reserva e reforma, estas questões formuladas por Lobo Xavier expressam, naturalmente, o pensamento que, desde há muitos anos, têm dos seus camaradas que, sucessivamente, foram ocupando os vértices da estrutura militar. É certo que, na maior parte das tomadas de posição públicas, os CEM’s foram sendo poupados a críticas por parte quer das APM quer de militares isolados. Mas, agora, até um civil que nunca vestiu a farda (como o próprio salientou) notou esta aberração de não se perceber de que lado estão os nossos chefes militares. Ainda não
perceberam que é uma posição reveladora de uma clamorosa falta de coragem, essa, sim, a todos os títulos insustentável? Se não têm vocação para os incómodos resultantes das funções que ocupam, porque não aproveitam o recado que o MDN deu às APM?

David Martelo

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

Tómate esta botella conmigo




















Tómate esta botella conmigo
en el último trago nos vamos
quiero ver a qué sabe tu olvido
sin poner en mis ojos tus manos
Esta noche no voy a rogarte
Esta noche te vas que de veras
que difícil trata de olvidarte
y que sienta que ya no me quieras


Nada me han enseñado los años
siempre caigo en los mismos errores
otra vez a brindar con extraños
y a llorar por los mismos dolores


Tómate esta botella conmigo
en el último trago me dejas
esperamos que no haya testigos
por si acaso te diera vergüenza
Si algún día sin querer tropezamos
no te agaches ni me hables de frente
simplemente la mano nos damos
y después que murmure la gente


Nada me han enseñado los años...
Tomate esta botella conmingo
Y en el último trago nos vamos.


Chavela Vargas

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

A caça...


















O sol nascera há minutos. No cimo da colina ao lado da estrada, e numa clareira com capim verdejante após as queimadas e as primeiras chuvas, pastava pachorrentamente um “pacação”.

Há anos que eu não dava um tiro. Depois da minha “epopeia” do Leste, ficara-me pouco gosto pelas caçadas. Tinha na lembrança o remorso do meu péssimo momento em que apontei à cabeça de João Monforte. Até já tinha recusado em diferentes oportunidades os convites do Gianni Valenti, um grande engenheiro e empresário; está a construir em Benguela o Hotel Mombaka. Será um dos melhores da África.
Ao sinal do Joaquim Neves Ferreira o Zé Cagido parou o carro. De imediato o ajudante, Caipemba, saltou da caixa da carrinha. Com os máximos cuidados para não fazermos ruído, acertámos a aproximação contra o vento.
Mesmo assim o pacação levantou a cabeça e continuou a pastar tranquilamente. Depois, a passo, encaminhou-se para a outra colina, entrando vários metros na mata rala que orlava a pastagem. Era um magnífico exemplar.
Tentámos a aproximação para se escolher a melhor oportunidade de atirar, já que o animal é feroz e podia arremeter contra nós. O terreno era irregular. Na perseguição da pacaça descemos até ao outro lado da colina, passámos uma estreita baixa, onde já corria um dos muitos ribeiritos que se formam no tempo das chuvas, sempre numa linha paralela à direcção que o animal ia tomando.
Em muito largos minutos tivemos de atravessar a orla da mata, num jogo às escondidas, até que na baixa seguinte conseguimos divisar de novo o enorme pacação. Escolhidas as posições atirámos, eu e o Zé. Tínhamos feito bons tiros.
Corremos como rapazes, embora tendo em conta que havia casos em que o animal ferido tivesse arremetido já nas vascas da morte. Mas não. Estava morto e bem morto quando o ajudante com a catana lhe degolou a jugular e o sangue irrompeu aos golfões. Tinha de ser bem sangrado, para que a carne pudesse ser comida sem aquele gosto ruim da carne de caça. Era um enorme pacação! E agora como é que o levávamos?
Foi o Joaquim quem teve a avisada ideia: ao menos teríamos de levar a cabeça e uma das pernas traseiras.
O sol já ia alto e forte. O calor apertava e o suor corria-nos em bica pelas costas, encharcando as camisas. Com a destreza de quem sabe, o ajudante e o Zé, separaram as presas que havíamos escolhido. Só então demos conta do volume e peso da perna inteira da pacaça, bem como a tarefa que seria subir todo o terreno até atingirmos a estrada. Iria ser dose de leão.
Começámos a subida com as óbvias dificuldades. A meio da colina, estafados, resolveu-se tirar da perna alguma carne para assim se aliviar o peso.
Revezávamo-nos no carrego. Mais umas centenas de metros e… nova paragem e mais outro bocado de carne fora.
O suor, até nos olhos nos entrava. Mais uns quantos quilos de carne tirados, nova estafadela, nova paragem, os bofes pela boca…
É quase uma da tarde, o calor aperta, as moscas atormentam e… eis que chega a solução:
– Caipemba, tu agora ficas aqui um bocado a descansar… e quando te sentires bem… tentas chegar à picada, com a perna às costas… Nós vamos buscar a carrinha para ficar mais perto!
– Sim, patrão!
Passam as horas. Conversando, bebemos umas quantas cervejinhas bem geladas que vinham na caixa térmica da carrinha. E nem sinais do Caipemba.
– Caipemba! Oh Caipemba!
Mas de Caimpemba nada. Bem podiam gritar o Zé e o Joaquim.
Novos gritos até que, ao longe, chegou a resposta:
– Está a ir, patrão!
Mas nada de Caipemba.
Novos gritos e sempre a mesma resposta:
– Está a ir, patrão!
– Então, rapaz, ”está a ir, está a ir” e ainda aqui não estás?! O que é que estarás a fazer?...
- Oh patrão, eu estar a ir… mas as forças é que não estar a vir…!
Quando chegou e pousou a nossa “peça de caça”, sobravam um osso descascado e uns quilos de carne na parte mais grossa.
Então não me contive:
– Foi para trazer este osso que se praticou esta odisseia?!
Bebidas mais umas cervejas, já com o ajudante, eis senão que este desaparece e já eram horas para continuar a viagem.
– Caipemba! Oh Caipemba, onde é que este alma do diabo se meteu?
Troveja o Zé Cagido.
– Está a ir, patrão!
Desta vez o ajudante estava perto. Apareceu já sem camisa. Nela embrulhara uns valentes quilos de carne da perna do pacação que escondera entre o mato.
– Como sobrou tão pouca carne no osso… eu não me atrevia a pedir a patrão um bocado para mim! Depois… lembrou que tinha sobrado esta lá atrás no capim!
Ao jantar na casa do Joaquim Neves Ferreira, não foi possível comer os afamados bifes. Eram intragáveis! Não havia maxilar capaz para triturar carne tão dura
Vai por certo ficar por muito tempo a história desta epopeia. Essa será deglutida noutras oportunidades, com muito gindungo e muita cerveja, ou o que quer que seja que mata a sede desta boa gente.

João Sena
in - O CAÇADOR DE BRUMAS
- III Parte O capim arde verde


Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

LUANDA !

















Aproximámo-nos de Luanda. Na entrada da barra o vapor deu o ronco. A manhã estava radiosa, sem uma nuvem. Depois de uma noite de tempestade o astro brilhante de anil dominador tingia em azul-marinho as águas quietas da baía. Passados minutos o navio começou a deslizar naquele lago. Eu, de olhos escancarados, não queria perder pitada daquela terra e daquele tempo que a sorte, o meu fado, me tinham determinado. As barreiras vermelhas corriam à minha esquerda, altas e recortadas pelo mar e pelo vento. Olhei para o meu relógio: eram seis horas da manhã. Pela primeira vez e de perto, eu via a terra prometida. A terra onde, se Deus quisesse, um dia haveria de morrer.

Estava à minha frente a silhueta de um pequeno morro com um castelo rodeado de pequenas casas. O morro esbatia-se à direita para aterrar numa ilha debruada a espuma. As casas brancas jogavam às escondidas entre o verde das palmeiras e as cubatas negras, que se iam definindo no arvoredo. A cidade aparecia mesmo ali à frente. O amontoado das casas e o recortar das palmeiras ficavam cada vez mais nítidos.
Por fim o ”Quanza” estacionou no meio da baía. Como em Dakar as pirogas cirandavam à sua volta e, com dezenas de nativos, foram-se aproximando os batelões. Os silvos da manobra misturavam-se com a expectativa dos passageiros. As barcaças iam-se encostando ao bojo do vapor. As escadas do navio foram arreadas; os primeiros funcionários da capitania entraram no navio depois do gasolina, que os transportara a grande velocidade, ter estacionado junto às escadas. Dos escaleres da Marinha subiram a bordo várias pessoas e um senhor fardado.

João Sena
in - O CAÇADOR DE BRUMAS
I Parte - Por esta vida acima

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Quem me quiser




















Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria

FÉRIAS NO UIGE


















Chegaram as férias e estão cá os estudantes; dão à vila um ar de festa.
Em sete anos, a modesta sede de circunscrição de Uige transformou-se na capital do café. Numa rua larga, que tinha ao cimo o edifício oficial e meia dúzia de casa dos funcionários, bem como uma ou outra loja, produziu-se o “milagre”. Já estão abertas ruas e avenidas, ajardinaram-se e construíram-se parques frondosos, as casas e residências multiplicaram-se e, o mais importante de tudo, acorreu gente que vem para ficar.
Na piscina e na “boite” juntamo-nos para os “pôr-do-sol”, como agora chamam a estas festas. Num destes “pôr-do-sol” apareceram a cantar dois agrimensores, que nos deixaram a todos completamente maravilhados. Como estamos na terra do café, disseram ser aqui que se estreavam e que se passariam a chamar de “Ouro Negro”. Penso que lhes deveríamos fixar os nomes: Raúl Indipwo e Milo MacMahon. Estão hospedados em casa do Carlos Alves, nuns anexos da casa.
Mas é uma maravilha ver as belas moças aqui do Uige, entre os quinze e dezoito anos. Mais ou menos morenas, todas belas e airosas. A Nela, filha do Zé Cagido, a Virgínia e a mana, filhas do Laurindo Ribeiro, a Mariazinha, a Eduarda e Cinda, filhas do Cordeiro de Oliveira, do Songo, a Raquel Nascimento, a Maria Helena, filha do Oliveira da Damba, a passar uns dias em casa do Joaquim Neves Ferreira, a Judite, filha do António Moço do Ambrizete, a Júlia Barbosa e a Maria José Patrício, a Maria Helena Branco, já a namoriscar com o filho do Ricardo Gaspar, dançavam, divertiam-se, recitavam poesias e cantavam as cantigas da moda, enquanto a miudagem mais pequena corria e saltava nos jardins.
Reparei que o Kalita era mais dado a brincar com os pequenotes que reunia à sua volta. Assim que ele dava azo, acudiam a Paula, o Beto e a Gija, o Manuel, a Guida, o Zé, a Dora e a Didi, a Maria João e a Mena, a Paula, a Aninhas, em lutas permanentes com o Zé Manel, mais o Paulo Luís, o Jorge e o Rui.
Aproveitando uma das viagens que fizemos na carrinha e, a propósito, perguntei-lhe qual daquelas belas moças achava que era a mais linda. Sem hesitar respondeu-me:
– A moça mais bela do Uige é a Maiamba Casanova!


João Sena

in - O CAÇADOR DE BRUMAS
- O capim arde verde

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Um dia como estes














Se um dia quiserem escrever alguma coisa digam apenas que fui um sonhador: amei sempre o impossivel!


js

Anoiteceu























Aqui sentado, pensava
Na minha vida;
... Nesta tristeza arrastada
Que ninguém quer alegrar;
Nesta fogueira cercada
Duma invernia polar.


E a mim mesmo perguntava
Se dessa vida ficava
Pelo menos uma baba
Igual à do caracol.
Uma excreção que brilhasse
Quando nela reparasse
A luz do sol...


MIGUEL TORGA

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

A CARTA





















Há uns tempos um nosso comum amigo falou-me que tinhas escrito uns livros. Já no hospital a minha prima… que ainda mora na Avª. de Roma, contou-me que lhe tinham falado nuns livros sobre África dizendo estarem muito bem escritos e que falavam do Leste Angola. Estremeci. De repente lembrei-me da conversa que tinha tido com o Jorge … e associei aos tais livros de que ele falara. O meu genro e algumas amigas procuraram na Barata e qual não foi o meu espanto quando dei conta que o autor eras tu. Por curiosidade li “O Sombras…nada Mais!” e gostei. Em diversas alturas quase te ouvia falar! Não era para mim admiração porque ainda me recordo das duas cartas de Natal que escreveste no jornal do batalhão.
Tive alta do IPO e como me sentia melhor fui de propósito à livraria Barata espreitar. A minha grande surpresa adveio de encontrar “O caçador de brumas”. Li-o em casa de um só folgo apesar das minhas maleitas. Não era possível! A maneira bela, romântica e cheia de poesia e humanidade não pia ter sido escrita por ti! Sabes o muito mal que me fizeste naqueles tempos de África. Durante anos odiei-te com todas as minhas forças. Só com os desgostos que fui tendo pelas fatalidades da vida fui tentando conseguir esquecer. Em cada capítulo que lia maior era a minha estupefacção: como era possível seres a mesma pessoa?
Discretamente fui sabendo de ti. Levantei os teus caminhos e soube da tua vida. Fui dando conta que estás mais gordo e com o cabelo todo branco. Pois é o tempo passa por todos mas não da mesma maneira. Uma vez vi-te na Versalhes e ainda bem que nem deste por mim. Depois fui vendo o teu blog e muito mais tarde o site no facebook. Dei então conta que eras agora uma outra pessoa, serena, macia e calma. Dos velhos tempos há muito pouco. Estás muitíssimo mais humanizado e escreves muito bem!
Dos velhos tempos guardas o mel do teu olhar e a poesia da tua escrita. Foi isso que me arrebatou a alma e o corpo e durante tantos anos me fez odiar-te!
Infelizmente os meus achaques aumentaram. Perdi peso e os tratamentos causavam-me muito mal-estar. Mesmo assim e antes de regressar ao IPO comprei este último “O capim arde verde” e já na cama do hospital e tanto quanto fui capaz fui-o lendo avidamente. Encontrei tantas coisas que julgam que se tenham passado connosco… mas se calhar é ilusão minha. Adorei toda a história! Tive pena de nela nunca eu ter entrado.
Tenho agora muito pouca fé. A vida fez-me perder aquela que aprendi no colégio. A minha vida esteve recheada de muitos maus bocados. Pela conversa do doutor devo estar na recta final. Olho o meu fim com calma. Tenho tudo arrumado para a partida. Se houver céu devo lá ter lugar pois sofri muito nesta vida.
Faltava-me só escrever esta carta. O meu genro depois de eu ser cremada irá mandar-ta põe email. Eu já cá não estarei para assistir ao teu sucesso de escritor ainda que tenha vindo já um pouco tarde. Mas lá da outra dimensão tudo farei para estar atenta.
Podia ter sido doutra maneira… mas não foi!
Gostava que publicasses esta carta no teu blog de escritor. Tenho o direito de ainda ser tua admiradora. Durante muitos anos estives-te nos meus pensamentos.
As minhas cinzas deverão ser postas junto de uma roseira como tu escreveste no teu livro. Quando passares no … e olhares as lindas flores que ali estão, uma delas fui eu! Também um dia eu fui bela e tive saúde!
Não gosto de lamúrias. Nestas horas derradeiras quero que saibas que infelizmente foste o homem da minha vida!
Na outra dimensão talvez nos encontremos.
Até lá…


MTM

Maria Bethânia - O que tinha de ser

Descalça vai para a fonte





















Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.


Luís Vaz de Camões

Max /** Vielas de Alfama **/

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Patxi Andion, Aqui

Um dia como estes














Há coisas absurdas. Como aquelas que dizem ser os quadrados redondos!
Tentar justificar porque se não pára o vento ou porque se fez aquilo que nunca devia ter sido feito em nome de que poderia ter sido pior é, em meu enteder, tapar o sol com uma peneira.
Todos os dias, ao fim da tarde, quando a luz começa a esvair-se e a negrura da noite avança e com ela o frio da noite gelada, dou conta do muito tempo que era de Primavera se esfumou entre os meus dedos.
Como a saúde, só damos conta que a perdemos depois de a ter perdido!
Agora é tarde! Muito tarde!
Nem sei se voltará a haver Primavera!
Posted by Picasa

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Um dia como estes




















Durante anos cultivei uma bela rosa no meu jardim. Nos invernos das geadas e dos ventos frios agazalhei-a o melhor que sabia e fui capaz. Nos verões, quando a canicula apertava, fui ao monte buscar água e regueia! Voltou a ser viçosa!
Hoje, quando precisava de uma rosa para adoçar a minha tristeza essa mesma rosa murchou há tempos atrás!
Aconcheguei o meu capote de velho e limpei uma lágrima.
Os sonhos morrem ao fim da tarde!
js

Con el tiempo (Borges)



Um dia, quando ainda era novo, traduzi este belo poema!
Hoje, nesta tarde fria de Inverno, parece que o entendo ainda mais!

Só o ajudei a chorar ...
















Um menino de 4 anos tinha um vizinho idoso cuja esposa havia falecido recentemente.


Ao vê-lo chorar, o menino foi para o quintal dele e sentou-se simplesmente no seu colo.

Quando a mãe lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, ele respondeu:

- Nada. Só o ajudei a chorar.

No mais, Musa, no mais...


















No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.

Luis de Camões
in - OS LUSIADAS