Foi um sábado já com um sol de meio-dia quente e saboroso, a convidar a libações de preferência com bebidas bem geladas que, na velha e bonita igreja matriz do velho Uige, hoje cidade de Carmona, situada no princípio d...a Avenida Capitão Pereira, que a Russinha e o Tó Mané se casaram.
A noiva ia linda como vão todas as noivas que pensam ir ao encontro da felicidade; mas o vestido, feito de encomenda pela Maria Armanda, deixou sem fala muitas das costumeiras más-línguas do Uige.
O noivo … era um perfeito noivo! Não admira, o fato tinha sido feito e caprichado pelo Sampaio & Irmão, os melhores alfaiates de Luanda!
Comoveram-se até às lágrimas quando disseram o “sim, quero”.
Os convidados deram profundos suspiros, quem é de suspirar; sorriram enlevados os que normalmente acham que em ocasiões como esta se deve sorrir enlevado. Eu fui desses de quem estou a tentar fazer graça. Enfim, portaram-se todos convenientemente, seja lá o que isto signifique.
No ar do dia quente e luminoso, os sinos repicavam à boda e a garotada esperava à porta da igreja pelos rebuçados e guloseimas da tradição.
A missa de casamento foi celebrada pelo senhor cónego Barata, uma figura estimada e respeitada em todo o Congo Português.
Ainda houve amigos que quiseram que fosse o Padre Rosas a oficializar a cerimónia, pois era um grande amigo e fazendeiro como nós todos. Mas eu entendi não ser essa a melhor escolha, só por causa da Russinha que o achava um imoral; o padre Rosas tinha sido padre para fazer a vontade à mãe e pouca vocação teria para tais funções. Quando cansado de dizer missas, perdoar pecados e baptizar meninos, fazer sermões e aturar beatas, tirava umas férias de sacerdote, com ou sem autorização eclesiástica. Fazia então umas férias, mais ou menos prolongadas, mais ou menos sabáticas, até que um dia, reconhecendo os seus pecados, se confessava e se reconciliava com a hierarquia. Voltava então ao redil para cumprir penitência.
Entretanto ficavam em “pousio”, as fazendas, as mulheres, os filhos, mais ou menos claros, pelas vastidões do Congo, à espera do fazendeiro que sempre regressava.
Aqui em África as coisas têm dimensões próprias. Também a moral, a virtude e o pecado assim são. E como por estas terras não há justos, as pedras não podem ser atiradas a quem quer que seja. Resta a má-língua, própria das pequenas sociedades rurais que dá para entreter, passar o tempo e para que, cada qual, possa medir ou aferir a sua própria honradez e as fraquezas do seu próprio carácter.
Nesta altura, o sacerdote, doublé de fazendeiro, estava numa fase que até dava para também ser padre!
Subiu ao púlpito e fez um sermão brilhante sobre o amor, como a máxima expressão da bondade divina!
Não resistiu aos votos de uma alargada família cheia de filhos pois todos não somos demais para continuar Portugal, disse, parafraseando a célebre tirada do Oliveira Salazar.
Pareceu a todos os presentes que o sermão fora mais aprimorado que os habituais sermões de casamento. Mais tarde, as “más-línguas” sugeriram que isso se devia a muito boa disposição do padre causada pela produção de café que a sua fazenda tivera, muito além das expectativas.
As senhoras da vila excederam-se na decoração do templo. Não houve jardim da terra que não contribuísse com as suas melhores flores e verduras.
Quando deixei a minha irmã no altar fiz por esconder uma lágrima que me atormentava vir a rolar pela minha face. Afinal, cumpria-se a sua vontade e resgatara-se o seu grande sonho de amor, que um dia ficara amarrado às fragas, nos recônditos da serra, na terra que nos viu nascer, com o do cabo da Guarda Republicana “que nem sargento era”.
A nossa mãe, radiante como sempre, no seu impecável vestido branco e capelline de organza, parecia outra noiva!
Fora ela quem deu o braço ao seu novo genro no caminho do altar.
O Kalita, de braço dado com a mamã Cesaldina, de carrapito, reluzindo num dos seus vestidos que trouxera da sua terra do Minho quando viera para Angola, adornada com um grosso cordão e as arrecadas de ouro tradicionais, sugeriam duas figuras do antigamente – uma beleza!
No casamento, além dos nossos amigos e familiares angolanos, incluindo o Mário e a Lelé, esteve o Uige inteiro e arredores. Veio gente de Maquela, da Damba, de Sanza-Pombo, do Negage, de Camabatela, do Quitexe, do Bembe, do Ambrizete, de Luanda. Houve até famílias que adiantaram as férias do Natal para estarem presentes.
Entre os convidados sobressaia a juventude: moças e rapazes casadouros, já com alguns derriços à mistura, tomaram lugar nos primeiros bancos da igreja. Destacavam-se a Virgínia e a irmã, filhas do Laurindo Ribeiro, a Mariazinha, a Eduarda e Cinda, filhas do Cordeiro de Oliveira, do Songo, a Raquel Nascimento, a Maria Helena, filha do Oliveira da Damba a Judite, filha do António Moço, do Ambrizete, a Júlia Barbosa e a Maria José Patrício, a Maria Helena Branco, namorada do filho do Ricardo Gaspar, a Paula, o Beto e a Gija, o Manuel, a Guida, o Zé, a Dora e a Didi, a Maria João e a Mena, a Paula, a Aninhas, o Zé Manel, mais o Paulo Luís, o Jorge e o Rui. Todos filhos dos meus amigos e quase todos, senão nascidos, criados e educados nestas terras do Uige.
Os quartos no Grande Hotel do Uige e no velho Hotel do Cardoso esgotaram. Mas como sempre, a sagrada hospitalidade do Mato funcionou. Quem não tinha quarto nos hotéis tinha em casa de uigenses.
O copo d’água foi servido pela gerência (já com o traquejo adquirido para estas cerimónias) do Grande Hotel do Uige, na sala grande do Clube Recreativo. O Zé Perestrello, director da Cuca, mandou montar, de propósito, vários barris de cerveja a copo a fim de matar a sede e o calor daquele dia de Verão.
Ainda houve quem pensasse em mandar vir da Metrópole, de propósito e para abrilhantar a cerimónia, o Duo Ouro Negro. Mas tal não foi possível por estes terem compromissos de espectáculos no estrangeiro.
O “Ouro Negro” era muito querido por todos, porque não obstante o Raul e o Milo fossem nados e criados na região de Malange, se “tinham feito” no Uige, onde trabalharam como topógrafos e onde tiveram as primeiras actuações, inclusivamente na Rádio Clube do Congo. O Raul e o Milo moravam então num anexo do prédio do Carlos Alves.
Assim, foi com a “prata da casa”, que já tinha actuado noutros eventos com êxito, que “saíram” os merengues, os sambas, os tangos e quejandas músicas bem mexidas.
A farra bem angolana foi de arromba!
Na hora própria, e à socapa, os noivos abalaram para a fazenda do Joaquim Neves Ferreira, especialmente preparada para a lua-de-mel, numa Station Jeep, melhor dito, num Jeep Willys Overland Super Hurricane, oferecido por mim, pois sabia quanto o Tó Mané era “maluquinho” por jeeps.
No outro dia, seguiriam em direcção a Luanda, para uma lua-de-mel de um mês e, já na nova viatura, iriam visitar e conhecer bem as praias e as cidades do sul de Angola.
JOÃO SENA
in - O CAÇADOR DE BRUMAS
III Parte - O capim arde verde



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