Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Para Sempre

























À Tia Camila

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade

O TEMPO ...


















O tempo é muito lento para os que esperam.
Muito rápido para os que tem medo.
Muito longo para os que lamentam.
Muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eterno !

William Shakespeare
Posted by Picasa

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

Charles Aznavour & Les Petits Chanteurs à la Croix de Bois - Ave Maria -...



Nesta hora do encerrar do ano de 2011, olhando tudo o que se passou e guardando a saudade daqueles que já partiram e nos esperam na volta do caminho, uma pequena prece e a nostalgia dos afectos perdidos nesta tão bela canção!

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

O madeiro no adro da igreja














Alegrem-se os Céus e a Terra
Já nasceu o Deus Menino!

Posted by Picasa

Bing Crosby - White Christmas

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

Maria Bethania - Lagrima




Lágrima por lágrima hei de te cobrar
Todos os meus sonhos que tu carregaste, há de me pagar
A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar.
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar.


Cada ruga que eu trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar,
cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, há de me pagar.
Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar.
As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar.


A flor dos meus anos, meus olhos insanos, de te esperar.
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar.
Cada ruga que eu trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar,
cada vez que no meu coração morrer uma ilusão, há de me pagar.
Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar.
As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar...

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

NÃO TE RENDAS, MEU POVO!




No te rindas, aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.
Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo
Porque lo has querido y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor, es cierto.
Porque no hay heridas que no cure el tiempo.
Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero.

Mario Benedetti

Há-de vir um Natal

















Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

How Do I Love Thee? (Sonnet 43)


























How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.
I love thee to the level of every day's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right.
I love thee purely, as they turn from praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


Elizabeth Barrett Browning

AS AMORAS




O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

EUGÉNIO de ANDRADE
 in - O OUTRO NOME DA TERRA 

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

"FAÇAM O FAVOR DE SER FELIZES !"
















"O verdadeiro génio foi aquele que foi criança até ao fim"


Agostinho da Silva

Best Christmas Lights Display (HD)

Best Christmas Lights Display (HD)

Cesária Évora - Mar Azul

GLÓRIA



















A fragata “D. Fernando II e Glória”, o último grande navio à vela da Marinha Portuguesa e também a última “Nau” a fazer a chamada “Carreira da Índia” – verdadeira linha militar regular que desde o Séc. XVI e durante mais de três séculos fez a ligação entre Portugal e aquela antiga colónia Portuguesa – foi o último grande navio que os estaleiros do Antigo Arsenal Real da Marinha de Damão construíram para a Marinha Portuguesa.

A Fragata recebeu o nome em homenagem ao Casal Real Português, o rei-consorte D. Fernando II e a Rainha D. Maria II, cujo nome próprio era Maria da Glória. O "Glória" do seu nome também se referia à sua santa protetora, Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os Goeses.

O casco foi construído com madeira de teca proveniente de Nagar-Aveli pelo mouro Yadó Semogi e vários operários indianos e portugueses, tendo sido responsável pela supervisão do engenheiro construtor naval Gil José da Conceição. Após o lançamento ao mar, em 22 de outubro de 1843, o navio foi rebocado para Goa onde foi aparelhado.

A sua construção importou em 100.630 mil réis. O navio estava armado com 50 bocas-de-fogo, com 28 na bateria e 22 no convés. O navio apresentou diversas configurações estando preparado para ter uma guarnição até 379 homens.

A sua viagem inaugural, de Goa a Lisboa, decorreu entre 2 de Fevereiro e 4 de Julho de 1845.

Durante os 33 anos que navegou percorreu cerca de 100.000 milhas, correspondentes a, quase, cinco voltas ao mundo. Como era flexível provou ser um navio resistente e de grande utilidade, tendo sido empregue no transporte de tropas, colonos e degredados para Angola, Índia e Moçambique. Participou em operações navais de guerra no Ultramar Português. Apoiou a expedição de Silva Porto de ligação terrestre entre Benguela em Angola e a costa de Moçambique.

Em setembro de 1865 a D. Fernando substituiu a nau Vasco da Gama como Escola de Artilharia Naval, fazendo viagens de instrução até 1878. Nesse ano, fez a sua última missão no mar, realizando uma viagem de instrução de guarda-marinhas aos Açores. Nessa viagem, ainda conseguiu salvar a tripulação da barca americana Laurence Boston que se tinha incendiado. A partir daí passou a estar sempre fundeada no Tejo.

Em 1938 deixou se servir de Escola Prática de Artilharia Naval, passando a ser utilizada como navio-chefe das Forças Navais no Tejo.

Em 1940 cessou o seu uso pela Marinha Portuguesa, sendo a fragata transformada em Obra Social da Fragata D. Fernando, uma instituição social que se destinava a albergar e a dar instrução e treino de marinharia a rapazes oriundos de famílias pobres.

Em 1963, um violento incêndio destruiu uma grande parte do navio, ficando abandonado no Tejo.

Entre 1992 e 1997 a fragata foi recuperada pela Marinha Portuguesa, recorrendo ao Arsenal do Alfeite e aos estaleiros Rio-Marine de Aveiro. Foi exigida durante a Expo 98 e encontra-se atualmente em Cacilhas, em doca seca, aberto ao público, onde decorrerá a exposição.

in - NRP CACINE
19/12/11

Cesaria Evora - Beijo Roubado

Triste país este



















...
Quantos anos mais levaremos a libertar-nos de Salazar? Todos os dias temos o passado explicado e reduzido a Salazar mais o que Salazar fez e não fez. Até a redução dos feriados remete para Salazar É um enjoo mas parece-me que não conseguem viver sem o invocar. Mas sobretudo não entendo como se reduz o país e os seus interesses à circunstância transitória de quem o governa. Na I Guerra o problema era República. Em Goa o problema era o Salazar. Em Angola idem… Triste país este cujos interesses e História acabam capturados pela identidade de quem o governa. Triste país este cujos mortos e heróis nunca são honrados como heróis nacionais mas sim como homens de um regime. É nestes dias que se experimenta uma imensa inveja dos ingleses e dos americanos.


helenafmatos
in - BLASFÉMIAS 19/12/11


Kyrie
























Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
José Carlos Ary dos Santos
in - Kyrie

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

O Amor, Meu Amor





Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
... e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto

Posted by Picasa

When I dream at night - Marc Anthony

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011


Talvez não seja próprio vir aqui, para as páginas deste livro, dizer que te amo. Não creio que os leitores deste livro procurem informações como esta. No mundo, há mais uma pessoa que ama. Qual a relevância dessa notícia? À sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores não deverão impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instantâneos poderão diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto será como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apagá-las. E possível que, perante esta longa afirmação, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde já, toda a razão.
Eu sei.
Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que te posso afirmar ao vivo, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz.
Tu sabes.
Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido. Eu próprio procuro ainda essa compreensão. Estou aqui apenas com o meu rosto, o meu olhar parado, a minha figura. Tudo aquilo que tenho para dizer está por detrás dessa imagem. Hoje, esse é o alfabeto com que realmente escrevo, o significado. Escrevo também com uma grande quantidade de elementos invisíveis, que chegam à pele e a atravessam. É dessa forma que sinto aquilo que tenho para dizer, pele e para lá da pele.


José Luis Peixoto

Posted by Picasa

Sábado, 10 de Dezembro de 2011

A Um Ausente






















Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade
Posted by Picasa

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

MORREU UM LANCEIRO
















São sempre gordas e escaldantes as lágrimas derramadas por mais um Amigo que parte sem dizer adeus. Porém, quando esse mesmo Amigo e Camarada nos acompanhou durante quase cinquenta anos ao longo da juventude e da vida, nas boas como nas más horas e, principalmente, nas horas trágicas que o destino sempre reserva, que connosco compartiu sonhos e derrotas, já não são lágrimas escaldantes e gordas, outrossim, lágrimas de sangue.
Hoje choro muito mais por mim.
Após anos de sofrimento no dito corredor da morte do hospital onde se espera apenas a hora depois de se ter perdido a esperança, finou-se, o arrimo, a parede certa, que nos anos violentos da revolução jamais nos abandonou. 
Deixa o sonho da união dos Camaradas, a Associação dos Lanceiros, que juntos levantámos e de que ele fez esforços insanos para que se mantivesse unida ao longo de quase quarenta anos.
Nas paredes da memória do Regimento, naquelas muito nossas da Saudade, ficarão desde hoje a letras de fogo, o nome de José Manuel Santos Costa, um Homem da minha terra.
No coração da Maria ficará perdida o vazio da Saudade e de o Amor de uma vida cheia de sonhos compartidos. Nos olhos doces da Bárbara as lágrimas correrão livres pelo Pai que tão cedo partiu.
Nós, os Lanceiros, secaremos as nossas lágrimas e como em tantos outros tempos de tragédia e união, gritaremos, uma vez mais:
- QUEM SOMOS?
- LANCEIROS!
Mas hoje já somos menos.
- Clarim, toca a silêncio. Hoje morreu um Lanceiro.
js 

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Lavava No Rio Lavava



"Já não temos fome, Mãe
Mas já não temos também
o desejo de a não ter"

Madeira, - A Garden in the Sea 1931

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

"Tive um Coração, Perdí-o*

VIRIATO


















À memória de Francisco Sá Carneiro



Fiz das planícies montanhas,
um gládio do meu cajado
e dos rebanhos, soldados.
- Assim construí o meu Povo!


Por escarpas e ravinas,
forjei Homens, rasguei sinas :
- Caminhos de gente livre!


Do suor fiz sangue e terra.
Na guerra,
gerei meus filhos,
livres todos,
como gritos perdidos nas serranias!
Rios de dor enxuguei
e o invasor dominei.
No tempo da minha idade
naufraguei no vento um grito :
- Um grito de Liberdade!


Roma foi ficando mais distante.
Às águias altaneiras um novo rumo risquei
e entre cardos e tojos,
barrocas,
escarpas,
nascentes,
rios novos e torrentes,
o meu Povo Libertei :
- Bárbaros!
...mas sem coleiras !


E para meu grito calar
tiveram de me matar !
joão sena

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

QUEIXA






















Toda a noite te esperei.
Quando cheguei
Não estava ainda luar.
E fiquei
A esperar
Que viesses
Como tinhas prometido.

Toda a noite te esperei
e afinal não apareceste.
Fiquei esperando,
Esperando,
E as horas foram caindo,
Uma a uma,
Como gotas de cacimbo.

Entretanto,
Surgiu de trás da Igreja
O disco, em prata,
Da Lua.
Debaixo da cajajeira,
Junto à valeta da rua
E sob a luz que me encanta
Vi nascer a madrugada
Da cor da Semana Santa,
Vi como a noite fugia
E como raiava o dia.
Toda a noite te esperei
E afinal não apareceste...

Toda a noite te esperei
E afinal não apareceste...
Esperei
E desesperei.
Desesperei
E chorei...

AIRES ALMEIDA SANTOS

in - POETAS ANGOLANOS
Posted by Picasa

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

Amália /**Abandono**/

CADA COISA A SEU TEMPO TEM SEU TEMPO





















Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.
À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.
À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,
E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve A negra ida do sol).
Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes Histórias, que nos falem
Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.
E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos
Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

RICARDO REIS (FERNANDO PESSOA)
in ODES DE RICARDO REIS (Ática, Lisboa, 1946/1994)