Lendo “ O Caçador de Brumas”
JOÃO SENA, é hoje um fundanense por opção e pelo coração. É oficial de Cavalaria. Comandou unidades em combate, durante dez anos da Guerra de África, nos teatros de guerra em Angola e Moçambique. Em 1975 sofreu de muitas vicissitudes de natureza política, social e profissional. Está há anos na situação de reforma e a viver em Lisboa, onde vai escrevendo histórias e livros, que pouca gente lê e, muito menos, compra.
Sábado, 30 de Dezembro de 2006
"QUANDO AS ÁRVORES CRESCERAM"
Já se encontra á venda nas livrarias o livro
"QUANDO AS ÁRVORES CRESCERAM"
"QUANDO AS ÁRVORES CRESCERAM"
É NECESSÁRIO ENCOMENDÁ-LO NAS LIVRARIAS, PARA A DISTRIBUIDORA PROCEDER AOS RESPECTIVOS FORNECIMENTOS.
OLHAR aquando do regresso...
Não foi preciso nada para me dar conta de que estava na minha gente. Sentado na cadeira de verga na varanda de madeira, ressequida pelos anos e quase coberta de hera, via as fragas, acesas pelos raios do sol, agasalhadas pelo musgo verdinho, – como que acabado de nascer no seio da neve derretida. À tardinha, passavam as mulheres de cântaro à cabeça; iam à fonte de mergulho tirar água. Depois, velhas e novas, conversando, subiam a barreira com os cântaros cheios, equilibrados nas molídias postas à cabeça sobre os lenços negros, e seguiam caminhando, descalças, por aquelas ruelas labirínticas de casas de xisto e de gorrão, cobertas de flores. Outras, tocam os burricos com cangalhas, onde levam embrulhado num xaile o filho de meses e o que é preciso para a ceia. Fico largos momentos a observar a paisagem dos rostos, plasmada de resignação e indiferença, da dor de ter nascido e do teimar em estar vivo. Olho as máscaras gastas das mulheres sentadas ao sol, a cismar, por detrás dos lenços negros que lhes tapam o rosto quase todo. Outras, agachadas na gasta pedra do portal ou no vão da escada, ficam a catar os piolhos aos filhos, ou a entrançar o cabelo às raparigas. As de meia-idade, no silêncio das tardes de calma, fazem as meias e remendam a roupa. Todas estão enraizadas há séculos, até um dia!... Num pronto, deixei de sentir o cheiro a suor na igreja, – gente descalça que se lavava pouco e mal – – , o permanente odor do estrume, e de me assustar com os milhares de moscas por toda parte; já pouco me importa o estrume, as bostas das vacas nos caminhos e na estrada, o cantar dos galos de madrugada, ou o toar dos sinos que anunciam mortes, Não foi preciso nada para me dar conta de que estava na minha gente. Sentado na cadeira de verga na varanda de madeira, ressequida pelos anos e quase coberta de hera, via as fragas, acesas pelos raios do sol, agasalhadas pelo musgo verdinho, – como que acabado de nascer no seio da neve derretida. À tardinha, passavam as mulheres de cântaro à cabeça; iam à fonte de mergulho tirar água. Depois, velhas e novas, conversando, subiam a barreira com os cântaros cheios, equilibrados nas molídias postas à cabeça sobre os lenços negros, e seguiam caminhando, descalças, por aquelas ruelas labirínticas de casas de xisto e de gorrão, cobertas de flores. Outras, tocam os burricos com cangalhas, onde levam embrulhado num xaile o filho de meses e o que é preciso para a ceia. Fico largos momentos a observar a paisagem dos rostos, plasmada de resignação e indiferença, da dor de ter nascido e do teimar em estar vivo. Olho as máscaras gastas das mulheres sentadas ao sol, a cismar, por detrás dos lenços negros que lhes tapam o rosto quase todo. Outras, agachadas na gasta pedra do portal ou no vão da escada, ficam a catar os piolhos aos filhos, ou a entrançar o cabelo às raparigas. As de meia-idade, no silêncio das tardes de calma, fazem as meias e remendam a roupa. Todas estão enraizadas há séculos, até um dia!... Num pronto, deixei de sentir o cheiro a suor na igreja, – gente descalça que se lavava pouco e mal – – , o permanente odor do estrume, e de me assustar com os milhares de moscas por toda parte; já pouco me importa o estrume, as bostas das vacas nos caminhos e na estrada, o cantar dos galos de madrugada, ou o toar dos sinos que anunciam mortes, alegrias e Trindades. Até o chiar dos eixos dos carros de bois me despertam do torpor. Deixei também de sentir a brisa fria, gelada e seca que, pelas madrugadas, vem da serra. Agora de regresso, vejo melhor como toda esta gente é pobre, talvez mesmo miserável e como, apesar disso, é tão feliz! alegrias e Trindades. Até o chiar dos eixos dos carros de bois me despertam do torpor. Deixei também de sentir a brisa fria, gelada e seca que, pelas madrugadas, vem da serra. Agora de regresso, vejo melhor como toda esta gente é pobre, talvez mesmo miserável e como, apesar disso, é tão feliz!
O CAÇADOR DE BRUMAS - Quando as àrvores Crescem

Já se encontra no Prelo, para edição o 2º livro editado do autor, Bernardino Louro. Estará brevemente nas Bancas.
Esta é a capa.
À SOMBRA DA AMIZADE
Conversa com Bernardino Louro
1 – A que período da nossa História se reportam as suas observações e a feliz recriação que delas faz?
A acção descrita em pano de fundo nos três tempos destas estórias – histórico, sociológico e etnográfico – começa em 1929, no ano em que foi inaugurada pelos CFB – Caminhos de Ferro de Benguela, a linha com quase 1400 km unia o porto do Lobito com a fronteira do antigo Congo Belga. Estava-se precisamente no dia 10 de Junho quando foi oficialmente inaugurada.
Com a abertura desta linha, a colonização de Angola, feita até então a corta-mato e por itinerários de terra batida, pode ser desenvolvida a um ritmo muitíssimo mais acelerado. A linha do caminho-de-ferro permitiu também o desenvolvimento do interior de Angola, fixando colonos e permitindo escoar os produtos agrícolas. Nesses tempos chegaram gentes das mais diversas proveniências com o sonho dos diamantes. Fundaram e desenvolveram o interior ignoto de Angola. Durante muitos séculos a costa de África serviu apenas para abastecer de água as naus, as aguadas e também de mantimentos frescos. Mais tarde e já no Século XIX, começaram a ser enviados os degradados, quase todos adversários políticos e, mais tarde, os condenados comuns. Foram-se fixando nas pequenas e incipientes povoações onde foram criados depósitos penais, guardados por companhias de indígenas com quadros militares coloniais.
2 – Em que medida a riqueza humana e telúrica do que tão vivamente descreve nos seus livros resulta directamente da sua experiência pessoal?
Quando cheguei a Angola em princípios de 1961 foi o deslumbramento: um mundo novo se abriu ante os meus olhos. Para além da incerteza da guerra e todos os seus horrores encontrei a terra em plena pujança onde as pessoas eram encantadoras, solidárias e com elevado nível de vida. Bastava chegar para se fazerem amigos; amigos que nos receberam de braços abertos. Em Luanda, já uma belíssima cidade, sentia-se por toda a parte o cheiro do mar, o calor das gentes, a beleza escultural das mulheres angolanas, a vida muito barata e as pessoas muito generosas. Para exemplificar, a gasolina custava menos de três escudos o litro, por 2$50 comprava-se um cacho de bananas, comiam-se bifes e ovos estrelados ao pequeno-almoço, a cerveja era baratíssima e nem era preciso ter dinheiro nos restaurantes e bares: passava-se um "vale" e ninguém ficava a dever. Quando havia dinheiro pagavam-se as contas atrasadas e a vida seguia igual. Um alferes ganhava mais de seis mil escudos: um ordenadão! Esta regra, mantida entre os colonos durante anos, viria a acabar com a chegada maciça dos batalhões. Porém, a minha maior surpresa foi a descoberta, vivida dia e noite, do que era o muceque. Tínhamos de patrulhar os diferentes bairros negros, sem luz e onde só havia água nos chafarizes públicos. Num emaranhado de ruas e cubatas encontrámos gente sofrida, pacífica e simples, apavorada ante a onda crescente de racismo que, como a mancha de óleo, se estendia pela cidade suburbana. Com o passar do tempo as coisas foram acalmando e os rios do ódio secaram. Nos contactos do dia a dia, nas muitas horas passadas juntos, estabeleceu-se a convivência, cresceram as cumplicidades e, naturalmente, formaram-se e desenvolveram-se amizades. Foi então o tempo de conhecer a nova cultura negra, descobrir sabores e compartilhar esperanças, na maior parte bem diferentes da missão militar que me tinha sido atribuída. Dou notícia desses tempos numa pequena crónica, – do meu outro livro " Escritas na Areia" – a que chamei "Dona Chica Cambuta". Anos mais tarde comandei uma companhia nas terras dos Luenas; aí tive o privilégio de conhecer a rainha Tchizanda; já velha, mas lúcida, proporcionou-me ter conhecimento dos hábitos e história do seu povo, barbaramente partido pela Conferência de Berlim, nos territórios de Angola e do então Congo Belga.
3 –– Como conseguiu captar tão certeiramente o sentir e o viver quer das populações nativas, quer das populações rurais do Portugal profundo, quer ainda dos vários tipos de colonos, assim considerados então?
Nasci numa pequena aldeia da Beira Baixa, em casa dos meus avós maternos, pequenos proprietários rurais. Cresci no Fundão, então uma pequena vila. Nestes ambientes de gente simples e sábias, ainda que de pouca instrução escolar, os valores estavam arreigados e as tradições mantinham-se. Na escola primária, um saudoso professor, o senhor professor José Maria Gonçalves, que Deus guarde, ensinava pelo exemplo esses mesmos valores. Como não havia assimetrias sociais, com todos se convivia e com todos se aprendia. Bastava estar de olhos abertos e com atenção aos exemplos que a escola e a vida nos iam ensinando. Outro tanto acontecia na aldeia onde se passavam as férias. Foi também esse um tempo muito rico, sem pressas nem atropelos, que dava muito tempo para aprender. Muitas desses quadros da memória estão pintados em crónicas no meu outro livro "Escritas na areia". Serviram para narrar um tempo, mais ou menos, reflectido no primeiro livro da trilogia: " O caçador de brumas por esta vida acima", "Quando as árvores cresceram" e "O cais das brumas mortas ". Neste amontoar de estórias, tentei também contar a saga da minha família que, por força das mudanças decorrentes da industrialização, se viu na necessidade de emigrar para África. Essas peripécias mais ou menos romanceadas foram rebatidas ao plano de umas quantas personagens. Tentei sintetizar frases, episódios e vivências que eu ouvi contar aos ceifadores errantes e também outras, escutadas durante anos, ao borralho no Inverno ou nas desfolhadas e vindimas dos finais do Verão, à sombra tutelar do meu avô Bernardino. Mais tarde, quando me tocou ter de me fazer ao mundo, vivi algumas dessas mesmas experiências. O tempo e a circunstância, com ajustamentos próprios inerentes a outro estádio civilizacional eram idênticos nas terras do Leste de Angola
4 – Como integra as suas três narrativas no conjunto harmonioso deste seu mosaico ficcional que tão eloquente e rigorosamente retrata a singular experiência dos portugueses em Angola?
Penso que, talvez por tudo isto pertencer à História recente, nunca ninguém contou o que foi o viver das gentes simples, sem políticas e só com trabalho. Tentaram fazer das terras de Angola a sua terra. Muito mais do que serem colonos, esta gente irmanou-se com os que lá estavam há séculos e tentaram ter melhor vida. Erraram, quando tentarem assumir-se como colonos, ao jeito belga ou inglês. Esta gente humilde, condenados e aventureiros, muitos a fugir à fome, entrou pelo mato adentro, perfilhou os filhos, mandou-os estudar nas Universidades, arroteou a terra, levantou pontes, ganhou dinheiro e com suor e lágrimas humedeceram a terra onde, tantas vezes com as próprias mãos, abriram covas para os filhos mortos. Assim se amarraram a essa mesma terra que julgavam fosse sua, pois assim lho haviam garantido os seus senhores. Com a ajuda dos missionários de várias religiões cristãs, com o apoio dos técnicos que foram chegando, funcionários administrativos e até exilados políticos, rasgaram-se caminhos e estradas, ajudaram-se a construiu igrejas, escolas, hospitais, ergueram aldeias, vilas e cidades e, todos, fizeram de Angola a nação próspera e rica que deixaram para as independências. Quando hoje, por vezes, esta gente anónima é falada, é só para ser enxovalhada e rotulada de negreiros e de exploradores. Porque sempre foram gente boa e parte deles foram sangue do meu sangue e amigos do coração, entendi ser importante – pelo menos no meu fraco entender – que alguém contasse, sem preconceitos ou enviusamentos políticos, o que foi, de facto, a sua história. Foi essa a tarefa a que me propus. Muitos dos factos por mim narrados posso deles dar testemunho; foram presenciados em diferentes locais durante mais de dez anos de mobilização militar em África. Quanto à história e costumes dos Luenas, penso que muitas memórias e tradições se perderam desde então. Talvez estes romances possam contribuir para o estudo e levantamento etnográfico daquelas belas gentes.
Antunes de Sousa
CAÇADOR DE BRUMAS

Eis um livro que nenhum português que tenha estado em Angola deve deixar de ler.Mas que o leiam os outros também os que nunca lá foram e verão como se lhes fará clara a razão de tantos portugueses terem aquela terra no coração.
É um livro muito bem escrito, fortemente impregnado de ressonâncias de uma ruralidade ancestral do país pré "25 de Abril" e do animismo profundo do povo luena, sempre densamente povoado de termos que resituam o leitor, em ecos de imprevista presença, no cenário luxuriante e encantatório de uma África mítica, mas teimosamente concreta.
In prefácio Prof.Doutor José Antunes de Sousa
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