Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Um dia como estes




















Durante anos cultivei uma bela rosa no meu jardim. Nos invernos das geadas e dos ventos frios agazalhei-a o melhor que sabia e fui capaz. Nos verões, quando a canicula apertava, fui ao monte buscar água e regueia! Voltou a ser viçosa!
Hoje, quando precisava de uma rosa para adoçar a minha tristeza essa mesma rosa murchou há tempos atrás!
Aconcheguei o meu capote de velho e limpei uma lágrima.
Os sonhos morrem ao fim da tarde!
js

Con el tiempo (Borges)



Um dia, quando ainda era novo, traduzi este belo poema!
Hoje, nesta tarde fria de Inverno, parece que o entendo ainda mais!

Só o ajudei a chorar ...
















Um menino de 4 anos tinha um vizinho idoso cuja esposa havia falecido recentemente.


Ao vê-lo chorar, o menino foi para o quintal dele e sentou-se simplesmente no seu colo.

Quando a mãe lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, ele respondeu:

- Nada. Só o ajudei a chorar.

No mais, Musa, no mais...


















No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.

Luis de Camões
in - OS LUSIADAS

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

O telefone toca, à noite

Marido:
- Se for para mim, diz que eu não estou em casa.
Mulher atende e diz:
- Ele está em casa.
Marido:
- Mas... que diabos!
Mulher:
- Era para mim...

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Ternura




















Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos ...
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes
 in 'Antologia Poética'

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Mariza - Fascinação (ao vivo)

Sábado, 28 de Janeiro de 2012



















"Só existe uma coisa melhor que fazer novos amigos, conservar os velhos.»


Elmer Letternam

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Placido Domingo - Adoro

SEPARAÇÃO




















A separação é dor indefinida
é constante
é aquele desconforto no peito
entranhado
estranho...
nunca termina
Consome levemente os momentos do encontro
dos olhares...os primeiros que tivemos
Ter-te em cada espera... como a primavera as flores
e desenhar o teu rosto mesmo por instantes
assim na sombra
na ausência
na metade...
Ter a demora do teu corpo no meu
nesta geografia perdida
sem coordenadas...
A voz quente que afaga os sentidos...
e adoça o movimento do olhar que te espera
que te acena num gesto secreto
íntimo
nosso
Separação é voltar a ter-te sem nunca sentir distância
é a dor suave do reencontro...


Rosa Fonseca
- in Fragmentos

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

António dos Santos "partir é morrer um pouco"

VASCO RAMIRES: O SOLDADO !


















A PROFUNDA SAUDADE DE UM GRANDE CAMARADA E AMIGO.
ATÉ BREVE... CAMPEÃO!

Conhecemo-nos há cinquenta anos! Compartimos África e a Guerra. Fez o primeiro curso de Comandos em Zemba, em Angola.

Foi culto sem exibições, grande e modesto na Vida, um Camarada exemplar e um Amigo sem reservas ou reticências.
É, de certeza, um dos mais brilhantes Oficiais de Cavalaria da minha geração.
Deus te guarde Vasco como sempre soubeste guardar a nossa amizade.
Adeus e até breve.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

CUERPO DE MUJER














Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
Y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.


Fuí solo como un túnel. De mí huían los pájaros
Y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
Como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.


Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste


Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Obscuros cauces donde la sed eterna sigue,
Y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

Pablo Neruda

CANCIONES DE AMOR Y DESAMOR



















ESTADOS DE ÁNIMO

A veces me siento
como un águila en el aire
(de una canción de Pablo Milanés)
Unas veces me siento
como pobre colina
y otras como montaña
de cumbres repetidas


unas veces me siento
como un acantilado
y en otras como un cielo
azul pero lejano


a veces uno es
manantial entre rocas
y otras veces un árbol
con las últimas hojas


pero hoy me siento apenas
como laguna insomne
con un embarcadero
ya sin embarcaciones


una laguna verde
inmóvil y paciente
conforme con sus algas
sus musgos y sus peces


sereno en mi confianza
confiado en que una tarde
te acerques y te mires
te mires al mirarme.

Mário Benedetti

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Gosto das tardes sombrias a olhar o mar



















Gosto das tardes sombrias a olhar o mar
do traço que desenho na areia fria
do sabor salgado nos meus lábios
da tranquila sensação do afago da brisa
Gosto deste intervalo de mim...
na procura de lugares onde estive
nas paisagens que já senti
Tenho a espuma a meus pés
num branco baço leitoso
como a palidez da tarde
Já se vislumbram ténues as luzes
ao longe...na cidade que desconheço
está acanhada o fim de tarde...
não há recorte no horizonte
não o distingo
as sombras regressam a matizar o entardecer
fico mais um pouco...escuto-me
entendo-me com a noite que se encosta a mim
de mansinho...
e segredamos o adeus a este encontro
Guardo todo o perfume das tardes sombrias
a olhar o mar.

Rosa Fonseca, "Sentires"

Há sempre uma primeira vez ...



















O português José Mourinho conheceu hoje um capítulo inédito na sua carreira de treinador. No jogo com o Athletic Bilbau, o técnico do Real Madrid foi assobiado pelos adeptos merengues apesar da vitória por 4-1.

Hommages au Général BIGEARD

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

antonio dos santos - gaivotas em terra



Outros tempos... muita saudade ... e a beleza e o talento que se não perdem no tempo !

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

TE QUIERO





















Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia


si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos


tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro


tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía


si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos


y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero


y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola


te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso


si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mário Benedetti

Às vezes entre a tormenta



















Às vezes entre a tormenta,
quando já humedeceu,
raia uma nesga no céu,
... com que a alma se alimenta.


E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.

E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.


Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.


Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.

Fernando Pessoa



Ao ponto a que chegamos!

















...
A seguir ao 25 de Novembro de 1975 a Instituição Militar estava escaqueirada, tanto em termos materiais como, sobretudo, morais. As imagens dessa época ao invés de terem ficado arquivadas deviam ser mostradas, anualmente, em todos os cursos de promoção a oficial superior e relembradas no curso de promoção a oficial general…



Deste modo se compreende que a prioridade, na época, fosse o de reconstruir o “edifício”, o que se fez com espantosa rapidez e eficácia. Talvez por causa da Lei da Física da “acção e reacção”…


Indubitavelmente as FAs recuperaram muito mais rapidamente do que o resto da Nação. Porém, a convulsão tinha sido profunda e deixou feridas graves no âmbito da ética, camaradagem, espírito de corpo, lealdade e … confiança mútua. O facto do processo de “sarar feridas”e apuramento de responsabilidades, não ter ocorrido nada bem (com culpas muito grandes, também, da classe política), não ajudou nada. A piorar as coisas a imagem das FAs, por uma razão ou por outra - que não vou agora especificar - saiu ferida em praticamente todo o país.


Isto causou uma perda severa de auto - estima e uma inibição psicológica de actuação. A evolução do sistema político e da sociedade fez o resto. Ou seja, ainda não superámos tudo isto o que resulta, na prática que, individualmente e como instituição, nos deixámos de dar ao respeito. Ora quem não se dá ao respeito não pode ser respeitado.
...
Brandão Ferreira

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

SMILE ...














Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
... Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Charles Chaplin
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012























E se alguma coisa me agrada em ti é o silêncio que guardam os teus silêncios, tão semelhantes aos das tuas fotografias frias e perfeitas.


Arturo Perez-Reverte

O CAÇADOR DE BRUMAS




















Atormentava-me verificar que todas as amarras que me ligavam aquela terra se tinham soltado; melhor dito: quebrado. Quebrado irremediavelmente!
Primeiro os habitantes do interior de Angola tinham vindo abrigar-se nas cidades cuidando que ali estariam mais abrigados da tempestade que corria pelo mato. Enganaram-se. Era nas cidades que o ódio, por estar mais concentrado, se manifestava mais feroz.
O impensável era agora realidade: havia ódio entre as raças, entre as famílias, entre os companheiros de trabalho e entre aqueles mesmos que se julgavam irmãos. A hora era pois de debandada daquela gente com os olhos secos de tanto chorar e as caras apatetadas pelo susto. Um salve-se quem puder. Muitos deixaram as luzes das casas e das fazendas ligadas para terem, ao menos, a ilusão de que viriam mais tarde. Os barcos e os aviões, as traineiras e as colunas auto saiam para qualquer lado pois qualquer lado onde houvesse uma nesga de paz era melhor que ficar na nossa terra.
Tomei nessa mesma hora a decisão de abandonar Angola e tudo quanto tínhamos construído.
Na hora derradeira em que fechei pela última vez a porta da minha casa um soluço vindo da alma arrancou torrentes de lágrimas dos meus olhos e com a cabeça apoiada no volante do meu carro chorei largos, mas muito largos minutos até que o pesadelo por fim estancou.
De madrugada, eu e a Lurdes fomos para o Lobito e dali saímos no primeiro cargueiro para a África do Sul. Foi o mais seguro e o mais fácil para depois podermos regressar a Portugal onde estavam já os nossos filhos. Para trás ficaria tudo. Ainda acalentava uma réstia de esperança que depois da tempestade, do furacão, ainda viesse a bonança.
Mas a bonança nunca mais chegou.




João Sena
in - O caçador de brumas

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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Han Kim plays Czardas by V.Monti

Vá Pensiero ...





















De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.


Fernando Pessoa
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

Sábado, 14 de Janeiro de 2012














Les vrais paradis sont les paradis qu'on a perdus


Marcel Proust

UM DIA COMO ESTES ...
















Nos dias da memória e da saudade, como é o de hoje, na solidão de quem escreve, vem-me à memoria as imagens perdidas no passar da vida.
Dentro da garagem, próxima do Largo do Intendente, posso observar os homens e mulheres sem sombra, como diz o Fernando, que, ali, se injectam nas partes mais reconditas do corpo estiolado. Os baldões da vida, a má sorte, as más companhias, o que se quiser, atirou-os para os sótãos da vida onde nunca há sol. A degradação física e moral é gritante. Não conseguem escapar da dependência!
Chegaram a esta situação porque acreditaram na utopia que forjaram nas próprias cabeças. Não aquela de que fala Thomas More, outrossim a utopia da felicidade.
Outros fizeram o mesmo nos caminhos do álcool, do fumo e de outras tentações que os arruinaram. Também daquelas vindas do amor ou de algo parecido como tal.
Fico arrepiado. A minha trajectória bem podia ter sido aquela.
Como há anos, nos trilhos que a guerra obrigou a traçar, há que resistir e cerrar os dentes. O primeiro lanço está cumprido: ter a noção da doença. Ter dado conta que se bateu no fundo.
Depois, será como os alcoólicos anónimos: tentar resistir, dia a dia.
Como diz a profunda canção de Sérgio Godinho, bebe-se a coragem num copo vazio, hoje é o dia do resto da minha vida.

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Nas Asas da Saudade - Carlos Paredes e Charlie Haden

A CIGARRA E A FORMIGA





















Versão alemã

A formiga trabalha durante todo o verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, bebe umas bejecas, vai ao Rock in Rio e deixa o tempo passar.Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada. A cigarra está cheia de frio, não tem casa nem comida e morre de fome.

Fim

Versão portuguesa


A formiga trabalha durante todo o Verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.
A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, bebe umas bejecas, vai ao Rock in Rio e deixa o tempo passar. Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada. A cigarra, cheia de frio, organiza uma conferência de imprensa e pergunta porque é que a formiga tem o direito de estar quentinha e bem alimentada enquanto as pobres cigarras, que não tiveram sorte na vida, têm fome e frio. A televisão organiza emissões em directo que mostram a cigarra a tremer de frio e esfomeada ao mesmo tempo que exibem vídeos da formiga em casa, toda quentinha, a comer o seu jantar com uma mesa cheia de coisas boas à sua frente.
A opinião pública tuga escandaliza-se porque não é justo que uns passem fome enquanto outros vivem no bem bom. As associações anti pobreza manifestam-se diante da casa da formiga.
Os jornalistas organizam entrevistas e mesas redondas com montes de comentadores que comentam a forma injusta como a formiga enriqueceu à custa da cigarra e exigem ao Governo que aumente os impostos da formiga para contribuir para a solidariedade social.
A CGTP, o PCP, o BE, os Verdes, a Geração à Rasca, os Indignados e a ala esquerda do PS com a Helena Roseta e a Ana Gomes à frente e o apoio implícito do Mário Soares organizam manifestações diante da casa da formiga.
Os funcionários públicos e os transportes decidem fazer uma greve de solidariedade de uma hora por dia (os transportes à hora de ponta) de duração ilimitada.Fernando Rosas escreve um livro que demonstra as ligações da formiga com os nazis de Auschwitz.
Para responder às sondagens o Governo faz passar uma lei sobre a igualdade económica e outra de anti descriminação (esta com efeitos retroactivos ao princípio do Verão).
Os impostos da formiga são aumentados sete vezes e simultaneamente é multada por não ter dado emprego à cigarra.
A casa da formiga é confiscada pelas Finanças porque a formiga não tem dinheiro que chegue para pagar os impostos e a multa.
A formiga abandona Portugal e vai-se instalar na Suíça onde, passado pouco tempo, começa a contribuir para o desenvolvimento da economia local.
A televisão faz uma reportagem sobre a cigarra, agora instalada na casa da formiga e a comer os bens que aquela teve de deixar para trás. Embora a Primavera ainda venha longe já conseguiu dar cabo das provisões todas organizando umas "parties" com os amigos e umas "raves" com os artistas e escritores progressistas que duram até de madrugada. Sérgio Godinho compõe a canção de protesto "Formiga fascista, inimiga do artista...".
A antiga casa da formiga deteriora-se rapidamente porque a cigarra está-se cagando para a sua conservação. Em vez disso queixa-se que o Governo não faz nada para manter a casa como deve de ser. É nomeada uma comissão de inquérito para averiguar as causas da decrepitude da casa da formiga. O custo da comissão (interpartidária mais parceiros sociais) vai para o Orçamento de Estado: são 3 milhões de euros por ano.
Enquanto a comissão prepara a primeira reunião para daí a três meses a cigarra morre de overdose.
Rui Tavares comenta no Público a incapacidade do Governo para corrigir o problema da desigualdade social e para evitar as causas que levaram a cigarra à depressão e ao suicídio.
A casa da formiga, ao abandono, é ocupada por um bando de baratas, imigrantes ilegais, que há já dois anos que foram intimadas a sair do País mas que decidiram cá ficar, dedicando-se ao tráfego da droga e a aterrorizar a vizinhança.
Ana Gomes um pouco a despropósito afirma que as carências da integração social se devem à compra dos submarinos, faz uma relação que só ela entende entre as baratas ilegais e os voos da CIA e aproveita para insultar Paulo Portas.
Entretanto o Governo felicita-se pela diversidade cultural do País e pela sua aptidão para integrar harmoniosamente as diferenças sociais e as contribuições das diversas comunidades que nele encontraram uma vida melhor.
A formiga, entretanto, refez a vida na Suíça e está quase milionária...


FIM

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

Eis-me

















Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face.
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce ...as escadas do tempo em que não moras E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio.
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

RAZÕES HISTÓRICAS PARA MOTINS MILITARES


9/1/12
“Tinham-nos dito, no momento em que deixámos a terra natal, que partíamos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença, tantos benefícios concedidos às populações que têm necessidade do nosso auxílio e da nossa civilização”. “Pudemos verificar que tudo isso era verdade e, visto que era verdade, não hesitámos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar a nossa juventude, as nossas esperanças. Não lamentamos nada, mas enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem-me que em Roma se sucedem as intrigas e as conspirações, se desenvolve a traição e que muitos, hesitantes, perturbados, cedem com facilidade às tentações do abandono e aviltam a nossa acção”. “Suplico-te, tranquiliza-me o mais breve possível e diz-me que os nossos concidadãos nos compreendem, nos defendem, nos protegem como nós próprios protegemos a grandeza do império”. “Se tudo fosse diferente, se tivéssemos de deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre as pistas do deserto, então, cuidado com a cólera das Legiões."
Marcus Flavinius,
Centurião da 2ª Coorte da Legião Augusta, a seu primo Tertulius





Da análise da História Militar sabe-se que desde os Assírios, os Persas, os Egípcios, os Macedónios, os Gregos, os Romanos, etc., que os motins militares têm origem, fundamentalmente, em três coisas: o não pagamento atempado do soldo (donde deriva a palavra soldado) devido; quando se interfere aleatoriamente na carreira (sobretudo na Idade Moderna) e quando os militares se sentem atraiçoados por quem os tutela.
Foi sempre assim e não se vislumbra (dada a natureza humana), que possa mudar.
Acontece que as numerosas malfeitorias que têm sido feitas à Instituição Militar (IM) e aos militares, por parte de sucessivos governos nos últimos vinte e tal anos - o que representa um passivo de problemas acumulado, único em quase 900 anos - vieram, por sorte vária, confluir no actual governo e chefias militares, em que:
- Relativamente ao soldo ainda não deixaram de pagar (embora já tenha havido um atraso de um dia, no ano passado, no Exército), e há mais de 10 anos que a rubrica de “pessoal” é sistematicamente sub - orçamentada, mas fizeram pior, fizeram regredir cerca de 4000 militares à tabela remuneratória de 31/12/2009. Uma coisa inaudita, que certamente nunca ocorreu em nenhum país, nem na “América Latrina”! E tudo depois de um conjunto de episódios pouco dignificantes cuja origem primeira, foi terem querido meter os militares na tabela salarial da função pública. O que à partida nunca devia passar pela cabeça de ninguém, já que um militar jamais poderá ter um estatuto de funcionário público!
Relativamente à “carreira” - que nos militares adquire uma importância que não tem paralelo em qualquer outra profissão - o actual congelamento das promoções faz com que o decreto-lei 373/73 (que deu origem ao 25 de Abril), pareça uma brincadeira de crianças. Julgo que não preciso de dizer mais nada.
E quanto ao facto dos militares se sentirem atraiçoados, ainda se pode distinguir três vertentes: o “Comandante Supremo” (que aliás não manda nada), que desapareceu, aparentemente, em combate; os governantes que não sabem o que querem, não têm política para coisa alguma, a não ser para os 3Rs - reduzir, reduzir e reduzir - não cumprem leis que aprovam, mudam regras a meio do jogo e têm, numa palavra, destruído paulatinamente uma Instituição sem a qual o País não se sustém; e sentem-se também atraiçoados pelas chefias militares, pois não têm ninguém que os defenda.
Não contentes, porém, em deixar medrar uma das razões que historicamente levam a motins nas forças militares, juntaram-nas todas três, em simultâneo. Convenhamos que era difícil fazer pior em qualquer parte do mundo!
Ora tal só é possível com enorme irresponsabilidade, incompetência, arrogância e muita falta de prudência.
E por terem encontrado pela frente muita gente capaz, disciplinada, com espírito de serviço e de missão, que anda há 20 anos (muito tempo antes da crise) a dar exemplo de contenção de despesas, reorganização e redução que, sem estar isento de erros ou críticas, não tem paralelo em mais nenhuma área do Estado. Mais ainda, apesar dos cortes constantes em tudo, ainda não se deixou de bem cumprir nenhuma missão atribuída, nem se envergonhou (antes pelo contrário) as armas lusas e o País, nos numerosos teatros de operações espalhados pelo mundo, onde marcou presença nos últimos 25 anos.
Não vai ser possível aguentar mais este estado de coisas.
Os contemporâneos julgam, quase sempre, que determinados eventos pertencem ao passado ou só acontecem aos outros.
E, por norma, só descobrem que estão enganados demasiadamente tarde.

Brandão Ferreira




















Cada uno es como Dios le hizo, y aun peor muchas vezes.


Miguel de Cervantes Saavedra

Para ti.














Amigo


1.
Amigo, toma para ti o que quiseres,
passeia o teu olhar pelos meus recantos,
e se assim o desejas, dou-te a alma inteira,
com suas brancas avenidas e canções.
...


2.
Amigo - faz com que na tarde se desvaneça
este inútil e velho desejo de vencer.
Bebe do meu cântaro se tens sede.
Amigo - faz com que na tarde se desvaneça
este desejo de que todas as roseiras
me pertençam.
Amigo,
se tens fome come do meu pão.


3.
Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verás na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
- como o meu coração - sempre buscando altura.
Sorris-te - amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança...
...
Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...

Pablo Neruda
 in - "Crepusculário"

* Tradução de Rui Lage

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

SEPARAÇÃO


















A separação é dor indefinida
é constante
é aquele desconforto no peito
entranhado
estranho...
nunca termina
Consome levemente os momentos do encontro
dos olhares...os primeiros que tivemos
Ter-te em cada espera... como a primavera as flores
e desenhar o teu rosto mesmo por instantes
assim na sombra
na ausência
na metade...
Ter a demora do teu corpo no meu
nesta geografia perdida
sem coordenadas...
A voz quente que afaga os sentidos...
e adoça o movimento do olhar que te espera
que te acena num gesto secreto
íntimo
nosso
Separação é voltar a ter-te sem nunca sentir distância
é a dor suave do reencontro...

Rosa Fonseca
in - Fragmentos
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012


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TANGO ARGENTINO BALADA PARA MI MUERTE

UM DIA COMO ESTES ...





















Estou muito confuso e sem horizonte. A minha vida enrola-se e não encontro o caminho.
Se fosse católico e crente poderia encarar a hipótese de acabar os meus dias num mosteiro. Mas eu não poderia suportar o ritual e a norma dos conventos. Também como sou avesso a rezas e a tantas horas passadas na igreja, mais o muito tempo a ter de estar de joelhos, não permitiriam que pudesse cumprir com as mínimas exigências. Li já não sei onde que muito pior que a norma da clausura o que torna difícil no convento é a convivência entre os frades. Quem diria?
Se ao menos tivesse uma casa para onde ir num qualquer lugar o meu problema talvez pudesse ser resolvido. Mas não tenho. Vivendo daquilo a que chamam a reforma somente poderia ir para pensões baratas já que me nego a viver em casa de amigos por mais amigos que sejam. Não alieno a minha independência. Gosto de estar sozinho quando me apetece.
Talvez pudesse aproveitar estadias nas messes militares mas também essas são difíceis de reservar, aprecio pouco a comida que servem e a intriga e a má-língua entre os residentes não dão descanso.
Tenho mesmo que nomadizar. Era essa uma das operações que se faziam na guerra de África quando não havia objectivos evidentes ou assinaláveis. Andava-se ao acaso. Penso que esta seria uma boa solução.
Por estes dias vou ter de acabar as análises clínicas, para ver se tudo continua bem, recuperar o meu saco da roupa de militar, recolher a roupa necessária e atestar o depósito do carro e partir.
Para onde? Não sei.
Mas tenho mesmo de partir.
Levarei um relicário com umas quantas boas recordações dos últimos tempos onde os afectos e as memórias prevaleçam.
Actualizarei o computador portátil, para poder continuar a escrever este romance, levarei o pequeno rádio para ouvir nas noites de insónias e o telemóvel para não ficar desterrado do mundo e de alguns amigos.

js

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

UM DIA COMO ESTES ...























Acabei, há horas, de ver como se diluíam no Universo os restos, em fumo, de mais um amigo que partiu.
Sentei-me num dos bancos do cemitério e deitei contas à vida. Estou cada dia mais próximo de ser eu a subir ao palco e ver descer a última cortina e escutar, por ventura, o derradeiro aplauso.
Foi uma amizade exemplar não obstante o muito que politicamente nos dividia.
Agora que os derradeiros raios de sol desta tarde de Janeiro, a galopar, caminham para a lua cheia que hoje alumiará os mortos, dou conta que mesmo as convicções mais arreigadas são transitórias, como transitória é a vida, os amores, as convicções políticas e as glórias efémeras. Mesmo as amizades tantas vezes apregoadas acabam na porta do cemitério! 
A um Deus Maior tudo foi implorado nas horas derradeiras.
E Deus não quis ou achou melhor, na Sua Infinita Sabedoria, agasalhar aquele caminhante exausto, que, há tantos anos, percorria a derradeira estrada que o levaria ao Calvário.

Eram cento e vinte escadas

























...
E pronto o despertar.
Um dia igual ao outro.
Sempre pão duro,
remolhado
na gamela da miséria
e da triste solidão!


No fim da rua canta um cego.
Bate ao sol na roufenha concertina,
toas alegres passodoles,
enleados em chotis
repenicados.
– Há alegria na calle!
e a gentes,
ao passar,
soltam as pesetilhas!
À tarde,
quando vem a sombra,
pára a música.
Entre as palmas do compasso
e o bater da bota na calçada,
geme o canto hondo,
requebrado,
falado e soluçado.
É a mágoa arrastada,
gemida e vomitada,
carpindo eterno morto.
Entre os prantos solta risos,
cínicos e desdentados ...
Canta marchas perdidas
daqueles que foram à guerra.
São gritos de esperanças perdidas
nas histórias sofridas
dos tristes já sem terra.
Canta loas, desenganos,
de um qualquer louco
que se perdeu por bem pouco:
– apenas por uma quimera!

joão sena
 "eram cento e vinte escadas"
in - "Marés vivas ao entardecer"

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

SÚPLICA


























Rio, que levas o meu sangue ao mar
E no mar o sepultas,
Doira minha memória.
Conta às ondas e ao vento
A desumana história
Da minha dor.
Que não julguem que tudo se resume
A uma gota de sol e de perfume
Diluída no pó da tua cor.

Miguel Torga
- Diário I I
Régua, 5 de Janeiro de 1942

PREGOEIRO DA NOSTALGIA de Eugénio de Sá

HOJE, ESTOU TRISTE

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Actualidade impressionante!


















Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
... E o Decreto da fome é publicado.


Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.


E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,


Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
José Régio